segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Les Artistes, Rio de Janeiro, março de 2003. - Nós somos a banda Super 8 e este é o nosso primeiro ensaio! – anunciei cômico e profético, microfone em punho. Risadas? Esparsas. Mas pudesse mesmo prever a ordem dos acontecimentos, o que mais eu diria àquela platéia de alunos da faculdade de cinema da Estácio? “Levem o cinzeiro como souvenir de um dia histórico”? Estariam todos, então, a serviço dos fatos, testemunhas da cultura evidenciando um marco, um corte epistemológico na vida e carreira de quatro dos colegas ali no palco ou tudo não passava de improviso e tão somente porque quisesse se mostrar prodigioso, Áureo Gandur, sem saber que isso prorrogaria sua estada no Brasil (não que fosse gringo, apenas nascera no país errado) de pronto assumiria a Les Paul do guitarrista contratado? – é, havia um conjunto profissional naquela noite e sabe lá se a canja nos foi concedida ou se a tomamos de assalto entre uma e outra canção. E o presunçoso Chris Neumann, a quem o destino reservara poltrona junto de Áureo em toda e qualquer missão, conquanto não fosse ainda um ritmista à sua altura, teria montado na bateria e feito duras viradas a troco de alguns olhares enviesados? Um verdadeiro bruxo não deixaria o tímido contrabaixo cair no colo de Gugu Peixoto, mas que palhaço não racharia o bico ao ver o protagonista deslocado? E o falso baixista vislumbraria o seu futuro a frente daquele circo pós-moderno a menos que fosse um verdadeiro bruxo e palhaço profissional? (O que o coloca a um nível acima de qualquer político!) A promessa de continuidade ao “projeto” causaria expectativa menor se a apresentação, que embora não tenha sido vaiada, fosse um sucesso ou sem nos dar por isso, atacaríamos de Que País é Este, da Legião, e Meu Erro, dos Paralamas, ao invés de algo que nos revelasse já? Mal nos conhecíamos! Este que vos fala, por exemplo: largaria o microfone e as previsões para ser o verdadeiro baixista da Super 8 nos meses que se seguissem àquele quase folclórico show? (O fardo de fundador já me pesava e, de mais a mais, que palhaço não racharia o bico ao ver o protagonista deslocado?) O guitarrista prodígio e o baterista pretenso, enquanto aguardavam que Tomaz Lenz os chamasse para integrar, mais tarde, o power trio Wendy K., hoje radicado na Áustria, abraçariam uma causa em português? Às favas com o contrabaixo, o clarividente Gugu Peixoto daria voz à trupe que sonhara ser sua quando esta andava longe de existir se, diante de um novo prenúncio, quiçá, a estrada lhe parecesse demasiado longa? A (re) estréia, aconteceria em novembro daquele ano no Café Etílico, uma casa de prestígio duvidoso e desquitadas de plantão ou dessa vez, contudo, veríamos do alto de nosso estrelato aqueles colegas de turma transformados em fãs, à longa espera de um bis, e outros curiosos aqui e acolá arriscando refrões desconhecidos? – ao nosso set list caberia não mais que o legado dos Atoxoxanos (leia-se detrás para diante), primórdios desta aventura, pois como aquelas músicas tivessem a marca do dono, Gugu insistiria em trazê-las consigo. E qual não seria a nossa surpresa e dos veteranos da atração principal Mundo Ventura, a que Gandur fazia parte também (pelo menos até ali), ao perceber que havíamos agradado mais? E se Super 8 já constasse nos altos do INPI (O.k, nem era tão genial assim, vai!), muitas bobagens nos passariam pela cabeça ainda? Super S, Marlon Banda, sei lá mais o quê – será que a dúvida persistiria até meados de 2004, quando o paraibano Luis Kiari (que, por ora, aparecerá aqui como Luca Ferreira, pois assim nos foi apresentado) me substituísse (!) e arrancasse meu direito a voto? Pois sim. Mesmo hoje, com os fatos pregados à memória, não sei precisar a razão pela qual abdiquei ao grupo (e nem o novo nome escolhido afinal!), mas o cheiro do sucesso nem sempre me fora agradável e em determinado momento havia me impregnado. E quem diria que o vibrante Neumann seria o segundo a dar no pé? Se soubéssemos que no ínterim de sua saída até seu embarque para Viena ele ainda rumaria no sentido da odonto, da produção fonográfica e do webdesign, às vezes tudo ao mesmo tempo, nos pouparia o espanto? Também este baque haveria de ser superado e para o seu lugar, quem sabe, Gandur convocaria Carlos Aranha, ex-companheiro de Ventura? Ao lado de nova formação e vigor, o calejado Gugu enveredaria por apresentações mais sólidas e composições mais frescas? Será que quem conhecesse o Gandur antes do Les Artistes, poderia supor que ele se tornaria o pivô daquele esquema e tudo em questão de arranjo, estética e planejamento passaria por seu crivo? Fosse assim, sua ausência se mostraria cruel, não só porque repentina, como as outras, mas porque levantasse a mais crucial das indagações: seria possível prosseguir sem ele? Além de tudo, se tornaria remanescente do acaso, do cinema como pretexto, do sonho nascido de um gracejo, do rock’n’roll. E agora? Assim, quando em franca conversa com Gugu esta pergunta morresse em meus braços, ecoaria por mais um segundo. E eu que nunca deixara de acompanhar sua jornada (isso explica a autoria desta resenha) arriscaria: - Que tal um novo estardalhaço? – ele entenderia aquelas palavras como bem quisesse. O resultado? Playmobille!!
***

O ator Gugu Peixoto, em pouco tempo de carreira, conquistara o respeito dos colegas com quem havia trabalhado. Comediante nato não lhe faltava convites para projetos homéricos ou para roubadas incríveis. Neste processo um dado de sua personalidade ficaria claro: não sabia dizer não! Desde o início tentara conciliar o teatro e a música e, nos últimos meses de Super S ou Marlon Banda ou sei lá que nome tinha, os ensaios e shows rarearam. Se por um lado estivesse assoberbado em montagens simultâneas de peças de Moisés Bittencourt e Alexandre Britto, e isso causasse mal-estar nas respectivas companhias, acabaria também por desgastar a relação profissional com seus músicos. Havia se tornado uma incerta. Marcasse uma reunião de banda às oito horas na Barra, ainda estava em Copacabana ensaiando cena. Dizia: - Estou chegando! – Por essas e outras, quando Gandur bateu em retirada, Luis e Aranha aproveitaram o embalo. O primeiro queria se tornar Kiari e partiu para uma carreira solo inevitável. O segundo tinha emprego sério e seu futuro como baterista nunca fora uma convicção plena. Por mais arrojado e desde que não se dispusesse a virar menestrel, violão pendurado nas costas, Gugu teria de procurar sua turma.

Se num rompante de prognósticos, alguém dissesse que nos idos de 2005 um entusiasmado Diego Vivas surgiria, não para cerzir a vela de uma embarcação à deriva, mas para emprestá-la novo sentido e estímulo, quem daria ouvidos? E se desta empreitada, que se saberia longa, pintasse dos porões da internet um Bruno Dantas ávido de tormentas, todo o vento voltaria a soprar doravante? Constaria nas cartas náuticas ou nos mapas geográficos o nome do velho Breno Tubarão (e que nome!), da agora extinta Ventura (haja coincidência!), a bordo desta tripulação? O leme da Playmobille deslizaria nas mãos do comandante Gugu pelo tempo do profissionalismo. Tudo o que antes ficara relegado ao segundo plano (melhores instrumentos, ensaios objetivos, gravação demo, logomarca, camisetas e adesivos) seria agora prioridade.

Neste mar de novidades, o show estaria também deveras mexido. Em abril de 2006, um misto de apóstolos e incrédulos iria ao Hard Rock Café conferir o que de melhor e pior sucedera ao antigo projeto. E o que se viu foi, de fato, outra banda. O grandalhão Diego, de cabelo moicano, parecia meio desengonçado com a guitarra e suava no encalço de uma pegada mais visceral. À parte isso, cobria algumas linhas de vocal e assumia inteiramente o microfone em outros momentos. Bruno, todavia, já dava indícios de ser o baterista definitivo. Certeiro e criativo impunha às canções a devida pulsação. Breno, como sempre econômico no baixo, manteve a maior parte dos grooves e fraseados já existentes. Ao Gugu restava fazer o que estava acostumado: interpretar – apesar de que estivesse um pouco menos à vontade, claro, pois era dele agora a responsabilidade pelos solos e riffs e isso acabaria por torná-lo um instrumentista mais requintado. As músicas mais remotas pareciam versões de si mesmas com detalhes de arranjos um tanto ousados e davam margem a uma mescla de covers entre os números próprios. Que havia mais dinâmica, isso era inegável.

Logo, um paradoxo viria se insinuar grave. Em festivais por todo o sudeste, fosse em Queluz ou Alvinópolis, a Playmobille, de posse de antigas e recentes crias, destacava-se – autoral e inovadora. Ao passo que no Rio, onde cativara eleitorado razoável, encerraria aquela temporada com apresentações semanais no Calibrado, na Barra, trazendo à tona seu lado “banda de baile”, mais festivo e despojado. O tempo de optar entre uma e outra tendência se estreitaria diante da necessidade de um material gravado e Gugu, que já roera a corda das artes cênicas, seria taxativo: jamais guardaria as composições na gaveta em prol de alguns trocados que tirasse nos bares executando sucessos alheios e sustentando, assim, um ciclo vicioso. Para tanto, seus companheiros teriam de aliar destreza e prontidão no processo de feitura do disco. Com a exceção de Bruno, ambas as características faltariam em maior ou em menor escala aos outros. O baixista se mostrava estagnado em seu ofício, e, embora fosse inquestionável a contribuição prestada por Diego na gênese da Playmobille, seu entusiasmo se dissipava. Como a rota já se definira, não couberam lamentações e balbúrdias – era hora de embarque e desembarque.

Por ser músico hábil, primo de Gugu e manter um estúdio em casa, Bipe supriria a vaga de guitarrista sem que esta fosse declarada aberta. E até que se encontrasse Rodrigo B, o Lemmings (ou Leminski?), nos mesmos porões virtuais de onde pintara Bruno e antes que se desse início às gravações, um Wallace não sei das quantas proveria o baixo de forma interina nos compromissos já assumidos pelo grupo. Posteriormente, em maio de 2007, a demo Amante Mutante afloraria. Deste trabalho pode-se dizer hoje que fosse pouco preciso, cada faixa apontando um horizonte distinto – todas competentes, mas umas, simplesmente, não conviviam bem ao lado de outras. Triste e reflexiva, Cara de Deus (espólio de minha passagem pela Super 8), nada tinha a ver, por exemplo, com a emblemática faixa-título ou com a radiofônica Pipoca e nem ao menos com a singela A próxima vez. Da nova leva a dançante Dama de Áries ou a confusa Sei que sei contrastavam-se não só pela temática, mas em termos de concepção de arranjos, às já batidas No Stress e Vagabundas, mais pueris. Faltava, quem sabe, um produtor apurado, alguém que indicasse a unidade entre as diversas vertentes das quais a banda derivava.

A repercussão daquele mini-álbum, no entanto, estamparia o rosto de seus integrantes na programação da TVE e da Rede Record, de onde, aliás, Gabriel Melo despontaria da figuração direto para o inédito posto de tecladista da Playmobille. Aos 19 anos, o músico papa-goiaba já acumulara experiência na noite e viria somar versatilidade e consistência às canções, além de ser notável backing vocal. E se o entra-e-sai de tripulantes provocava mais instabilidade que o próprio vaivém das ondas, aquele barco ainda aportaria para uma última troca. Rafael Sperduto, o Batata, a convite do amigo Leminngs, conduziria a guitarra e não mais Bipe. Em agosto, no Quebra-Mar, uma festa à fantasia em comemoração ao 26° aniversário de Gugu marcaria o início de uma formação permanente, cujo líder He-Man, acompanhado de outros personagens (animados ou lúdicos) típicos dos anos 80, subiria ao palco para fazer jus ao nome inspirado no brinquedo Playmobil, febre na época – uma espécie de resgate (mais do espírito infantil do que propriamente daquela década).

Nem bruxo poderia prever as peripécias do surgimento e ascensão da Playmobille, mas se desembarcasse de volta a 2003 naquele determinante Les Artistes com a chance de mudar o curso da história, o heróico Gugu faria exatamente tudo igual. Nem quando seu quinteto despertasse o interesse do mercado e a cobiça de toda a sorte de espertalhões, ele evitaria a tentação de um contrato aparentemente promissor (algumas laudas invisíveis a olho nu). E quando entrasse em acordo com um pequeno selo carioca, cuja distribuição de CDs ficaria a cargo da poderosa Universal Music, tomado de nova esperança, o vocalista avistaria terra firme outra vez e muitos louros na chegada. Miragens repetidas de um viajante! Mas, seguida de cada ilusão, a realidade se anuncia implacável e sua viagem teria, em qualquer hipótese, o desfecho esperado. Se as despesas com estúdio e produtor de renomes, videoclipe e execução em rádio fossem exorbitantes para o orçamento da banda (como combinado, a gravadora não se coçaria), que se encalacrasse em dívidas mesmo! Afinal, os frutos daquele primeiro e imprescindível álbum, já sabia, seriam incalculáveis.

Em maio de 2008, “o mágico” Rodrigo Vidal transformaria um eclético e prolixo repertório num disco sucinto e coeso, moderno e maduro, leve e vibrante. Daquela antiga demo, tudo o que reportava ao acervo da Super 8 estaria agora descartado. Ironia ou auto-afirmação? Sabe Deus, mas não fariam a menor falta. O material construído a partir da insígnia Playmobille se bastaria. Gugu ainda sacaria da manga uma bela e improvável parceria com Luís (já Kiari) – a cantiga Linda Rosa, a propósito, figuraria também, um ano depois, entre as faixas do Cd de Maria Gadú, produzido pelo mesmo Vidal. Fast-food (letra e música de Batata) cumpriria com louvor, no contexto deste trabalho, sua função contrária e soaria um acinte (favor pesquisar todos os sinônimos que a palavra possa obter). Com o auxílio luxuoso de Lemmings, Caio por ti, um dos melhores momentos de uma audição atenta, deflagraria o poeta Gugu Peixoto. Em tributo a Caio Sóh (trocadilho desde o nome), a letra alternaria candura e primor (“se cai o querer”, “se Caio quiser”). Se lidos os versos parecessem simples, cantados causariam alarde. E quando se pudesse conciliar uma coisa e outra, no mínimo, um sorriso viria à luz. Ao descobrir, porém, que Julinho de Adelaide era um pseudônimo, pensei que o autor de Jorge Maravilha me fosse íntimo conhecido. Um dos poucos rocks da carreira de Chico Buarque, a canção parecia feita de presente à Playmobille, quase 40 anos antes! E se a editora não impedisse, a introdução de Stairway to Heaven acompanharia a melodia de Chico. Ao invés disso, o arranjo de piano de Gabriel, aqui, calharia exato.

Enquanto Vidal acertasse os últimos detalhes do som, a imagem da banda ficaria incumbida do diretor Rafael Talma. Um reencontro com a sétima arte? De certa forma, porque à medida que um clipe possa ser considerado uma espécie de curta-metragem, o roteiro de Pipoca, ambientado no hall de uma sala de cinema, não deixaria de ser metalingüístico. Simultaneamente encerradas as etapas de mixagem e masterização do disco e de pós-produção do “filme”, aquele single alcançaria a audiência das principais rádios do Rio, Minas e Rio Grande do Sul e o “elenco” encontraria espaço na grade da MTV e do Multishow.

Em outubro, no reencontro com um Hard Rock Café lotado, Bruno, Batata, Lemmings Gugu e Gabriel estreariam oficialmente em áudio e vídeo. O lançamento do cd Devaneios e Fosforilações (referência a um pai que, com pé atrás, soltou estas pérolas a respeito das ambições do filho) e a exibição do clipe antes do show transcorreriam, evidentemente, em clima de oba-oba. Performance intacta, arrepios, Maria e Leandro Léo juntos abrindo vozes em Linda Rosa, tudo como de costume. Mas antigos desafetos na torcida, gente da imprensa especulando e whiskie importado no camarim... Quase daria pra desconfiar. Acrescente a isso um álbum na praça, o que mais poderiam querer os rapazes? Vendas, talvez.

Se na internet algumas faixas transbordavam em milhares de downloads e execuções em poucas semanas, nas lojas a bolacha empoeirava. O selo não vinha trabalhando o álbum como prometera, não repassava ao grupo os direitos conexos devidos e, quando propício, emperraria os fonogramas e as edições. Tanto assim que, no fim do ano, quando a Playmobille desse as caras no Domingão do Faustão e no gigantesco palco do Festival Rock de Todos os Tempos no HSBC Arena, no Rio, seu passe estaria cotado entre as contratações de 2009 da Som Livre (Gadú já assinara!) e não fosse uma junta de assessores jurídicos reaver os direitos autorais de Gugu e seus principais parceiros sob a ameaça de processo judicial, a nova gravadora certamente hesitaria em relançar suas músicas.

Às vésperas de firmar outro contrato (e bem lido) e às voltas com ginásios abarrotados (vide a abertura de shows de Strike, NX0, Fresno e Teatro Mágico por todo o país), não cabe à banda (nem ao seu biógrafo) conjecturar sobre futuro próximo. A atenção da crítica (especializada!) e a temperatura do público (imprevisível!) falarão por si, à mostra nos segundos cadernos da vida e no Jet set nacional. No instante em que me chega às mãos o cd de Maria (não pude comparecer ao seu lançamento ontem por conta desta matéria) e enquanto espero vê-la hoje à noite na TV, vou ficando por aqui, ansioso pela chegada, qualquer dia desses, do barco Playmobille, mais um entre a frota varandista. Varandismo? Bem, isso rende outro fascículo.


Ps.: Ainda existe o Les Artistes, ali na Gávea?

Fred Sommer, 31 de julho de 2009

Um comentário:

  1. -
    Muito legal,
    Cara.. eu quero ver o segundo fascículo!
    Valeu, Fred!

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